Os efeitos do estresse do transporte

Transporte de Bovinos de Corte

Introdução

Durante a vida produtiva, os bovinos são expostos a diversos manejos que, invariavelmente, os tiram de sua zona de conforto e os levam à condição de estresse (Carroll e Forsberg, 2007). Essas situações, também conhecidas como estressores, podem ser classificadas como de cunho psicológico (desmama, estabelecimento de hierarquia dentro do lote), físico (lesões, fraturas) e fisiológico (desvios neuroendócrinos causados pelos estressores físicos e psicológicos). É importante ressaltar que essas situações podem ocorrer de forma isolada ou conjuntamente,  sendo um clássico exemplo aquele observado durante a transição dos animais da recria para o confinamento, na qual os animais são expostos a diversas situações de estresse em um curto intervalo de tempo (Araujo et al., 2010).

O transporte animal é uma atividade que está intimamente ligada a cadeia produtiva da carne. No Brasil, todos os dias, milhares de animais são transportados, sendo o principal destino os abatedouros (MAPA, 2018). Dentro do ciclo produtivo, o transporte atua como um link entre as fases de produção da bovinocultura de corte (operações de cria, recria, terminação e abate), presente desde o início da produção (operação de cria) até o destino final (indústria frigorífica).

No Brasil, a aplicação desses manejos é um desafio ainda maior, pois enfrentamos dificuldades relacionadas ao clima, longas distâncias e todos os problemas de infraestrutura da malha rodoviária nacional. Segundo os dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT, 2018), apenas 12,4% das estradas brasileiras são pavimentadas, sendo estas concentradas próximas dos grandes centros urbanos. Por isso, é comum os animais serem transportados por longos períodos em estradas que apresentam péssimas condições de circulação, além da possibilidade de ficarem parados na estrada/rodovia à espera de melhores condições de transporte, em virtude de alagamentos e atoleiros. Fazendo uma analogia com o nosso cotidiano, se ficamos estressados em um trânsito dentro do carro com ar-condicionado, você já imaginou a sensação do gado confinado em uma carreta sob o sol de verão no Centro-Oeste?

A recente valorização da reposição, custos dos insumos e estreitamento das margens pressionam o produtor a buscar alternativas para melhorar a eficiência produtiva, uma vez que sistemas mais eficientes se tornam mais rentáveis economicamente.  Desta forma, os produtores começaram a dedicar maior importância aos fatores que podem estar “corroendo” a eficiência de sua operação (Giro do Boi; Outubro/2020), tais como o estresse causado pelo transporte. Nesse sentido, o presente boletim tem como objetivo apresentar os efeitos do estresse do transporte sobre a saúde e produtividade do rebanho.

Efeitos do estresse do transporte sobre a produtividade do rebanho

Diversos dados na literatura demonstram que o estresse resulta em efeitos deletérios à produção animal (Johnson, 1997; Carroll e Forsberg, 2007; Araujo et al., 2010; Cooke, 2017). Classicamente, estresse é definido como qualquer fator ou soma de fatores que retiram o organismo da sua zona de conforto ou sua homeostase (Moberg, 2000). No momento em que o estresse é percebido/reconhecido pelo animal, o organismo dispara uma cascata de eventos iniciada pelo aumento na concentração de cortisol na corrente sanguínea (Glaser e Kiecolt-Glaser, 2005). Fisiologicamente, o cortisol exerce efeito catabólico nos tecidos de reserva do organismo (tecidos adiposo e muscular), aumentando a concentração de ácidos graxos não esterificados (AGNE) e aminoácidos (AA’s; Nelson e Cox, 2005) na corrente sanguínea, com o intuito de subsidiar a demanda nutricional do organismo e combater o estressor.  Os AGNE presentes na corrente sanguínea são reconhecidos pelas células de defesa do organismo (leucócitos) como produtos provenientes de um dano celular (Abbas e Lichtman, 2007), ativando os mecanismos de defesa do sistema imune inato (SII). Essa ativação resulta na produção e liberação na corrente sanguínea de citocinas pró-inflamatórias (Gabay e Kushner, 1999), que, por sua vez, sinalizarão ao tecido hepático uma perturbação da homeostase do organismo, para que o mesmo produza e libere proteínas de fase aguda (PFA), para a retomada da homeostase (Carroll e Forsberg, 2007; Figura 1). Em outras palavras, a primeira linha de defesa do organismo, o SII, irá gerar resposta padrão a qualquer estressor (estresse ou patógeno) de natureza perturbadora da homeostase, denominada resposta de fase aguda (RFA; Carroll e Forsberg, 2007), na tentativa de retomada da homeostase, o que resulta em um dreno de nutrientes que poderiam estar sendo destinados aos processos anabólicos (produção de leite e ganho de peso).

Figura 1. Resposta do organismo e mecanismos envolvidos na tentativa de retomada da homeostase do organismo após o contato com um agente estressor. Adaptado de Moberg (2000), Carroll e Forsberg (2007), Bertoni et al. (2008), Cooke e Bohnert, (2011).

Entretanto, a atenção ao estresse animal e a necessidade de redução do mesmo vem ganhando cada vez mais força, não somente em manejos invasivos (castração ou descorna), mas também em qualquer outro manejo que possa conferir estresse ao animal, seja ele de natureza psicológica, física ou fisiológica, tal como o transporte. É sabido que animais transportados passam por experiências de estresse que levam a ocorrência da RFA (Arthington et al., 2008; Cooke et al., 2011; Cooke et al., 2013). Exemplos desses estressores incluem a restrição hídrica e alimentar, injúrias e exaustão física (Swanson e Morrow-Tesch, 2001). Estudos conduzidos pelo grupo de pesquisa do Dr. Reinaldo Cooke demonstraram que o transporte resultou em aumentos na concentração circulante de cortisol, AGNE e PFA após o transporte, em comparação aos animais não transportados. Por isso, não acaba sendo surpresa que os animais transportados apresentam piora nos indicadores de desempenho pós-transporte, tais como ganho de peso diário (GPD) e conversão alimentar (CA; Marques et al., 2012; Cooke et al., 2013; Tabela 1). No entanto, os efeitos do estresse do transporte não se resumem somente a fase de produção, mas também na etapa final, o abate,  uma vez que há mobilização das reservas energéticas do tecido muscular (glicogênio), impactando o catabolismo do glicogênio em ácido lático e, consequentemente, o declínio do pH da carcaça (Grandin, 1980). Em bovinos, o pH de carcaça elevado (> 5,8) predispõe elevado risco de ocorrência de cortes escuros, firmes e secos (DFD), reduzindo a qualidade do produto final e aceitabilidade do consumidor.

 

Tabela 1. Parâmetros de desempenho no período de entrada em confinamento de animais pós-transporte

Item Controle Transportados Diferença
Marques et al. (2012)      
  GPD,  kg 1,27 0,94 -35,11%
  CA, kg de MS/kg de ganho 6,22 8,00 -22,25%
Cooke et al. (2013)      
  GPD,  kg 1,28 1,11 -15,32%
  CA, kg de MS/kg de ganho 5,84 6,61 -11,65%

Dentre os estressores envolvidos no transporte, as restrições hídrica e alimentar estão relacionadas como fatores críticos (Marques et al., 2012), principalmente no que se refere à restrição alimentar (Marques et al., 2019). De acordo com a literatura, as restrições hídrica e alimentar estimulam a mobilização de tecido adiposo e muscular, estimulando o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (Henricks et al., 1994; Nelson e Cox, 2005), conhecido por estimular RFA em bovinos (Cooke e Bohnert, 2011). As restrições hídrica e alimentar também podem prejudicar e desestabilizar o ecossistema ruminal, causando  morte bacteriana (Meiske et al., 1958), o que resulta em liberação de endotoxinas (lipopolissacarídeos) e também estimula a RFA (Carroll et al., 2009).

Durante o transporte e permanência no caminhão, os animais passam por um período de restrição hídrica e alimentar. Desta maneira, Cooke et al. (2013) avaliaram o efeito de paradas (2 paradas; 2 horas/parada) durante um transporte de 24 horas, para que os animais pudessem descansar e ingerir água e feno, na tentativa de aliviar os efeitos deletérios do transporte sobre a saúde e desempenho dos animais. A adoção de paradas durante o transporte diminuiu o estresse e RFA, mas não foi capaz de melhorar o desempenho (GPD = 1,09 vs. 1,13 kg/dia) dos animais no período pós-transporte, quando comparados aos animais que foram transportados de forma contínua, da origem ao destino. Sendo assim, a adoção de estratégias que possam atuar nos demais estressores envolvidos no transporte (estresse psicológico de estar contido no caminhão, embarque, desembarque e mudança de ambiente) se faz necessária, uma vez que adotar paradas de descanso durante o transporte se tornam inviáveis. Desta maneira, a utilização da Substância Apaziguadora Bovina [SecureCattle (SC)], uma tecnologia que pode ser adotada em qualquer manejo que confira estresse aos animais, se mostrou eficaz em diminuir o estresse (menor concentração de cortisol no pelo 14 dias após manejo; Schubach et al., 2020), melhorar a saúde (reduziu a concentração de haptoglobina; Cooke et al., 2020; Schubach et al., 2020) e o desempenho dos animais (aumentou o GPD e peso vivo; Cappellozza et al., 2020; Cooke et al., 2020) na fase subsequente ao estresse, em comparação aos animais do grupo controle.

Especificamente no manejo do transporte dos animais, a administração de SC beneficiou as operações subsequentes ao transporte (terminação em confinamento; qualidade das carcaças dos animais abatidos). Animais que receberam SC no momento do embarque para o confinamento (pré-transporte) apresentaram maiores GPD, eficiência alimentar, peso vivo final, peso de carcaça quente e rendimento de carcaça (Fonseca et al.; em preparação). Em outro estudo envolvendo o estresse do transporte, Cappellozza et al. (2020) demonstraram que a utilização de SC no momento do embarque dos animais para o abate reduziu o pH médio da carcaça (5,75 vs. 5,82, SC e controle, respectivamente; P < 0,0001) e diminuiu o risco de ocorrência de cortes DFD, devido ao menor número de carcaças com pH acima de 5,8 ou 6,0 (42,2% vs. 26,2% e 19,4% vs. 11,2%, respectivamente; P < 0,01).

Em resumo, o transporte é um manejo inevitável na cadeia produtiva de bovinos e seus impactos influenciam o período subsequente da vida produtiva do rebanho e a qualidade do produto final, diminuindo o GPD, piorando a CA e aumentando o risco da ocorrência de cortes DFD. Desta forma, estratégias para minimizar os efeitos deletérios pós-transportes são necessários para otimizar a operação e melhorar a produtividade e rentabilidade da atividade.

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